Fiz parte de um grupo de poetas que,
costumeiramente, visitava asilos de
idosos.
Poesias, histórias e cantorias, eram a
tônica das visitas.
Um espetáculo de sentimentos !
Contava-se um episódio e, da plateia,
ouvia-se outro, mais emocionante, narrado
por pessoa com mais de 100 anos de vida.
Pode-se imaginar o volume do repertório...
Numa tarde gelada de agosto, céu cinzento,
vento soprando do quadrante sul, fui tocado,
às costas, por um velho homem, pedindo-me para
ouvir a sua confissão, pois não teria coragem
de faze-la a um sacerdote.
Curioso, aceitei.
Disse-me:
" Estou neste asilo há mais de vinte anos.
Não tenho ninguém por mim, além da sociedade, é claro.
Sabes o que pratiquei em toda a minha vida ?
Rufianismo ...
Não presto. Não valho nada.
Vivi às custas da miséria moral.
Aqui, mesmo, neste asilo, estão internadas
quatro mulheres idosas, que fizeram parte
do "plantel" que explorei por muitos anos.
Fingem não me conhecer, por vergonha.
Sou um canalha, pois aliciei, multas delas,
por dinheiro, desmanchei casamentos e
destruí lares.
Escondo-me de Deus, por constrangimento.
Não mereço ser perdoado."
Disse-me, tudo isto, com as ranhuras que a
vida deixou em sua face, transbordando de lágrimas !
Até hoje, procuro palavras para consola-lo,
e não as encontro, talvez por não merece-las.















